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Indústria de transformação do aço encolhe e déficit externo cresce

Anuário da Abimetal‑Sicetel mostra recuo na transformação do aço em 2025 e déficit externo maior. Entenda o efeito direto em custos, prazos e riscos para quem importa ou exporta aço.

Indústria de transformação do aço encolhe e déficit externo cresce

Em 2025, a indústria brasileira de transformação do aço processou cerca de 3,3 milhões de toneladas, queda de 0,3% em relação a 2024, segundo o 15º Anuário de Análise Econômica do Mercado do Aço, divulgado em 7 de outubro de 2026 pela Abimetal‑Sicetel Brasil Inovador. No mesmo documento, o segmento de trefilação e laminação aparece com déficit comercial de US$ 823,1 milhões em 2025, com importações de US$ 1,158 bilhão contra exportações de apenas US$ 335 milhões Brasil Inovador.

Essa combinação de queda leve na produção, salto de importações e déficit crescente chega direto na operação de quem importa, exporta ou usa aço como insumo: pressão em frete na rota Ásia–Brasil, volatilidade de custos no desembaraço com possíveis medidas de defesa comercial e maior competição de produto acabado importado no mercado interno. Para distribuidores, fabricantes e traders, isso significa revisar contratos, prazos e origem de fornecimento com muito mais cuidado.

Contexto: retração na transformação, salto nas importações e pressão externa

O 15º Anuário de Análise Econômica do Mercado do Aço, apresentado em encontro setorial em São Paulo em 7 de outubro de 2026, mostra que a indústria brasileira de transformação do aço processou cerca de 3,3 milhões de toneladas em 2025, recuo de 0,3% frente a 2024 Brasil Inovador. É um movimento de estagnação na base produtiva, em um momento em que o aço importado avança.

Por tipo de produto, a produção de aços longos ficou em cerca de 2,6 milhões de toneladas em 2025, queda de 0,4% em relação a 2024. Já os aços planos recuaram de forma bem mais forte: aproximadamente 575 mil toneladas em 2025, redução de 27% frente ao ano anterior; o quadro do Anuário registra total transformado de 3,175 mil toneladas na série apresentada Brasil Inovador. Esses números indicam pressão maior justamente sobre segmentos mais expostos à concorrência internacional.

No comércio exterior, o quadro é mais duro. O balanço comercial de trefilação e laminação registrou déficit de US$ 823,1 milhões em 2025, quinto aumento consecutivo. Em 2021, o déficit estava em US$ 612,6 milhões e, em 2025, as exportações somaram US$ 335 milhões enquanto as importações atingiram US$ 1,158 bilhão Brasil Inovador. Ou seja, a dependência de produto importado cresceu em valor e em peso dentro da conta externa do setor.

Em termos físicos, o Brasil importou 783,3 mil toneladas de manufaturados de trefilação e laminação em 2025, alta de 5,3% sobre 2024. A diferença entre importações e exportações em volume foi de 581,1 mil toneladas. A China respondeu por mais de 50% das importações desse grupo em 2025, de acordo com o Anuário Brasil Inovador. Isso concentra risco em uma única origem e reforça o peso da rota Ásia–Brasil na formação de preço interno.

O movimento não é isolado do restante da indústria. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a indústria de transformação como um todo registrou, no primeiro semestre de 2026, déficit histórico de US$ 38,2 bilhões na balança comercial somada dos seus setores, sinal de perda de competitividade sistêmica Brasil Inovador.

Do lado das siderúrgicas, o Instituto Aço Brasil, no Congresso Aço Brasil encerrado em 30 de setembro de 2026, chamou atenção para o avanço das importações de “aço contido” — o aço embutido em produtos finais importados, como máquinas, equipamentos e bens de consumo. A entidade estimou que o país deve fechar 2026 com cerca de 4,9 milhões de toneladas de laminados importados, incluindo esse aço contido Aço Brasil. Na prática, isso amplia a competição não só de insumos, mas também de bens acabados com alto conteúdo de aço.

Esse cenário alimenta pressões políticas por defesa comercial. Em fevereiro de 2026, em audiência na Câmara dos Deputados, foi mencionado que a Camex já havia aplicado taxas específicas para determinados produtos chineses, como laminados planos a frio e aços revestidos, como forma de resposta às importações consideradas desleais Câmara dos Deputados. Essas decisões impactam diretamente a conta de quem importa.

Além disso, há processos de defesa comercial em curso. O Extrato Público NT 940/2026, do MDIC/Camex, trata de investigações sobre fio para concreto/mola colchão, discute excesso de capacidade global, o papel da China e menciona NCMs como 7217.10.19, à luz da Resolução Gecex nº 272/2021. O documento apresenta fundamentos para eventual alteração de alíquotas do Imposto de Importação ou aplicação de medidas compensatórias, deixando claro que qualquer mudança passa a valer após publicação oficial pelo Gecex no Diário Oficial da União MDIC/Camex.

Impacto prático: custo, prazo, documentos, rotas e contratos

Para o dia a dia de quem importa, exporta ou processa aço, os números do Anuário e os movimentos regulatórios se traduzem em pontos bem objetivos na operação.

1. Custo e fluxo de caixa na importação

  • O aumento de importações de manufaturados de trefilação e laminação para 783,3 mil toneladas em 2025 (5,3% acima de 2024) eleva a demanda por frete marítimo, armazenagem portuária e serviços de desembaraço para essa família de produtos Brasil Inovador. Isso tende a pressionar custos de logística principalmente em períodos de pico.
  • Em valor, o segmento importou US$ 1,158 bilhão e exportou US$ 335 milhões em 2025, gerando déficit de US$ 823,1 milhões Brasil Inovador. Para distribuidores e indústrias que dependem de aço importado, isso é um sinal de que mais capital de giro está imobilizado em moeda forte, sujeito a câmbio, variação de frete e, eventualmente, novas tarifas.
  • Medidas antidumping e compensatórias já aplicadas para determinadas categorias de aço plano de origem chinesa, decididas pela Camex em fevereiro de 2026, podem elevar o custo efetivo no desembaraço, via aumento da carga tributária sobre o valor aduaneiro (incluindo frete e seguro) Câmara dos Deputados. Qualquer projeção de custo CIF/FOB precisa simular esses cenários.

2. Exposição a mudanças de alíquota e regras de defesa comercial

  • O processo NT 940/2026 deixa claro que NCMs específicas, como 7217.10.19 (fio para concreto/mola colchão), estão sob avaliação para possível alteração de alíquotas ou aplicação de medidas compensatórias, com base em alegações de excesso de capacidade global e práticas de comércio MDIC/Camex.
  • Importadores desses NCMs precisam monitorar a tramitação do processo e a publicação de resoluções Gecex: a mudança de alíquota passa a valer somente após publicação, mas pode pegar contratos de longo prazo com margens apertadas.
  • Para quem exporta, especialmente fabricantes que concorrem com importados chineses, essas medidas podem alterar o posicionamento de preço no mercado interno e abrir ou fechar janelas de oportunidade para vendas externas.

3. Rotas e concentração em Ásia–Brasil

  • Com a China respondendo por mais de 50% das importações de manufaturados de trefilação e laminação em 2025 Brasil Inovador, a rota Ásia–Brasil torna-se ainda mais crítica. Oscilações de frete nessa perna, restrições de capacidade ou mudanças regulatórias de origem (como controles de exportação) terão efeito direto no custo e na previsibilidade de abastecimento.
  • Na logística interna, o aumento de volume importado pressiona janelas de atracação, operações de descarga, armazenagem e "puxadas" dos portos para plantas industriais e centros de distribuição. Em portos mais congestionados, isso pode significar maior risco de demurrage.

4. Contratos de fornecimento e cláusulas de revisão

  • A tendência de déficit crescente (de US$ 612,6 milhões em 2021 para US$ 823,1 milhões em 2025 no segmento de trefilação e laminação) Brasil Inovador indica que a indústria local perde espaço, aumentando a dependência de importado em ciclos de preço baixo.
  • Em contratos de longo prazo com fornecedores estrangeiros, torna-se essencial prever cláusulas de reajuste relacionadas a: frete internacional, câmbio, mudança de alíquotas de importação e aplicação de medidas antidumping ou compensatórias, para evitar que um ato regulatório derrube a margem do comprador.
  • Para exportadores, a pressão de “aço contido” citada pelo Instituto Aço Brasil — com estimativa de 4,9 milhões de toneladas de laminados importados em 2026, incluindo conteúdo em produtos acabados Aço Brasil — reforça a necessidade de diferenciar contratos por prazo, serviço e especificação técnica, e não apenas por preço de tonelada.

A leitura da TMLOG

Interesse por trás dos números

Os dados do Anuário da Abimetal‑Sicetel, da CNI e do Instituto Aço Brasil mostram uma indústria de transformação pressionada por importações e por perda de competitividade em várias frentes. Os produtores de aço e transformadores têm interesse direto em fortalecer a agenda de defesa comercial e proteção de mercado. É legítimo: há excesso de capacidade global, a China responde por mais de metade das importações de manufaturados de trefilação/laminação e o déficit do segmento cresceu de US$ 612,6 milhões em 2021 para US$ 823,1 milhões em 2025 Brasil Inovador.

Por outro lado, uma parte da imprensa e do debate público tende a resumir o problema como “invasão de aço chinês” e a sugerir que tarifas mais altas resolveriam sozinhas a questão. Os dados da CNI sobre déficit de US$ 38,2 bilhões na indústria de transformação no primeiro semestre de 2026 Brasil Inovador indicam algo mais amplo: a perda de competitividade passa por infraestrutura, tributação, custo financeiro, tecnologia e escala — não apenas por preço de importação.

O que realmente muda para importadores, exportadores e indústrias

  • A curto prazo, o principal vetor de mudança é regulatório: decisões da Camex já em vigor para alguns produtos e processos em andamento, como o NT 940/2026, podem alterar rapidamente a conta de importação para determinados NCMs MDIC/Camex.
  • A concentração de mais de 50% das importações em origem chinesa, em um volume de 783,3 mil toneladas de manufaturados de trefilação/laminação em 2025 Brasil Inovador, aumenta a exposição a choques na rota Ásia–Brasil, seja por frete, disponibilidade de navios ou questões geopolíticas.
  • Para quem exporta, o cenário reforça que competir só em preço é cada vez mais difícil: com laminados e aço contido importados pressionando o mercado interno, exportadores precisarão buscar nichos de maior valor agregado e clientes que valorizem especificações, serviço e confiabilidade logística.

O que fazer nas próximas semanas

  • Mapear NCMs de risco: revisar o portfólio de importação e exportação e confrontar cada NCM com processos em andamento, como o NT 940/2026, além de medidas já vigentes para aços planos e revestidos de origem chinesa Câmara dos Deputados e MDIC/Camex.
  • Rever contratos e cláusulas de reajuste: garantir mecanismos contratuais que permitam repassar, negociar ou ao menos compartilhar impactos de novas tarifas, sobretaxas ou variações extremas de frete.
  • Diversificar origens quando possível: mesmo com preço competitivo da China, avaliar alternativas de fornecimento em outras regiões pode reduzir o risco de ruptura logística ou de concentração excessiva sob o alvo de medidas de defesa comercial.
  • Ajustar a estratégia logística: analisar a malha de portos, terminais, armazéns alfandegados e modais de saída para mitigar o efeito de picos de importação (como os 783,3 mil t de 2025) em custos portuários e risco de sobre-estadia.

O cenário é desafiador, mas previsível para quem acompanha dados setoriais e atos da Camex com regularidade. A diferença, na prática, está em transformar esses sinais em ajustes rápidos de rota logística, contratos e estrutura de suprimentos.

Alerta prático: um erro comum é fechar contratos longos de importação de aço com base apenas na alíquota vigente de Imposto de Importação e no frete atual, sem prever no contrato mecanismos de revisão em caso de novas medidas antidumping ou compensatórias. Com processos como o NT 940/2026 em curso para NCMs de fio de aço MDIC/Camex, essa prática pode transformar uma vantagem de preço em prejuízo súbito no desembaraço. Cláusulas de revisão atreladas a mudanças regulatórias reduzem esse risco.

Fontes

Talita Melo
Talita MeloEspecialista em comércio exterior

Especialista em comércio exterior e logística internacional, com atuação em importação, exportação, desembaraço aduaneiro e desenvolvimento de negócios internacionais na TMLOG Global Trade & Logistics.

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